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Etomidato e vecurônio na indução anestésica de cardiopatas chagásicos crônicos

Nilson de Camargos Roso, João Abrão e José Álves Neto

Disciplina de Anestesiologia da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro. Uberaba, MG.

DOI: 10.1590/S0037-86821999000100008


Resumo Com o objetivo de avaliar as respostas hemodinâmicas e cardiovasculares durante a indução anestésica com etomidato (hipnótico) e vecurônio (bloqueador neuromuscular) na doença de Chagas humana analisaram-se 41 pacientes (15 chagásicos e 26 não chagásicos). Durante o ato anestésico colheu-se sangue para sorologia e foram registrados pressões arteriais, freqüência e ritmos cardíacos e saturação arterial de oxigênio em seis momentos diferentes. A análise das pressões arteriais e da freqüência cardíaca, tanto nos chagásicos como nos não chagásicos, mostrou variação significante nos diferentes tempos do ato anestésico, mas não entre os dois grupos no mesmo tempo. A saturação arterial de oxigênio manteve-se constante em todos os casos estudados. Conclui-se que as duas drogas são seguras para uso na indução da anestesia do chagásico crônico. 
Palavras-chaves: Doença de Chagas. Anestesia geral. Etomidato. Brometo de Vecurônio. Hemodinâmica.

Abstract Fifteen chagasic and 26 non-chagasic patients were evaluated for hemodynamic and cardiovascular responses during induction of anesthesia with etomidate (a hypnotic agent) and Vecuronium (a neuromuscular blocker). Blood for serum testing was collected during anesthesia. Blood pressure, heart rate and rhythm, mean arterial pressure and arterial oxygen saturation were also monitored on six different occasions during anesthesia. When the various stages of anesthesia were compared, significant differences in blood pressure and heart rate were observed. For any of the given stages of anesthesia blood pressure and heart rate did not show significant differences when chagasic were compared to non-chagasic patients. Arterial oxygen saturation remained steady in all cases. We conclude that both drugs are safe for use during the induction of anesthesia in chronic chagasic patients.
Key-words: Chagas’ disease. Anesthesia general. Etomidate. Vecuronium bromide. Hemodynamic.

Para os anestesiologistas, dentre as várias formas anatomoclínicas da doença de Chagas (DC), têm maior importância aquelas que acometem, de maneira mais intensa, o coração, já que as drogas utilizadas em anestesia, na sua maioria, atuam como depressoras da função cardíaca1 12.

Em cardiopatas não chagásicos, há vários anos, na indução da anestesia, vem se utilizando o etomidato (hipnótico) e o vecurônio (bloqueador neuromuscular), com resultados bastante satisfatórios7 9 10. Outras drogas que não estas podem levar a indesejáveis complicações3 4 5 8 9.

Não havendo estudos sistematizados sobre o uso do etomidato e do vecurônio em portadores da tripanosomose cruzi, nos pareceu pertinente avaliar as respostas hemodinâmicas e cardiovasculares em cardiopatas chagásicos crônicos durante o ato anestésico.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O material consta de 41 pacientes, 16 homens e 25 mulheres, submetidos a anestesia geral no Hospital Escola da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (HE/FMTM), divididos em dois grupos.

Grupo I: 15 chagásicos crônicos, 7 homens e 8 mulheres, com idade variando de 39 a 74 anos (55 ± 12,21), dos quais 12 com a forma cardíaca e 3 com a forma mista (cardíaca e digestiva) da doença.

Grupo II (controle): 26 pacientes, não chagásicos, sendo 9 homens e 17 mulheres, com idade entre 17 a 63 anos (39 ± 12,66)

O diagnóstico de DC foi estabelecido pela positividade no sangue, de pelo menos dois dos seguintes testes: hemaglutinação indireta, imunofluorescência indireta e imunoenzimático (ELISA). A determinação da forma anatomoclínica dos chagásicos foi baseada nos dados clínicos, no eletrocardiograma convencional e no estudo radiológico do coração, esôfago e/ou colon.

Nos 3 chagásicos com a forma mista da doença a indicação cirúrgica em 2 foi para tratamento de megaesôfago e em 1 para megacólon. Nos 12 cardiopatas chagásicos crônicos as cirurgias foram eletivas, por motivos não relacionados à tripanosomíase (colecistectomia, tireoidectomia, mamoplastia redutora, nefrectomia, etc.). Os 26 não chagásicos, não tinham sinais e sintomas sugestivos de cardiopatia e foram submetidos a cirurgias eletivas.

Todos os pacientes pertenciam, quanto ao estado físico, às classes I ou II do critério de avaliação usado pela Sociedade Americana de Anestesiologia (ASA)12.

Após aprovação do projeto pelo Conselho de Ética Médica do HE/FMTM e consentimento verbal dos pacientes, foi iniciado o trabalho que se desenvolveu durante os anos de 1995 e 1996. O ato anestésico foi sempre de responsabilidade de pelo menos um dos autores deste trabalho.

Todos os pacientes foram anestesiados com o seguinte protocolo: pré-medicação na sala de cirurgia com diazepam (5mg IV) e fentanil (2µg/kg IV), desnitrogenação por seis minutos, indução da anestesia venosa com etomidato (0,3mg/kg) e vecurônio (0,1mg/kg). Ventilava-se por dois minutos enquanto se aguardava o relaxamento adequado para se realizar a intubação orotraqueal sob visão direta. Na manutenção da anestesia usou-se o enflurano. Os anestesiologistas envolvidos no estudo, durante o ato anestésico, não tinham conhecimento do grupo a que pertenciam os doentes.

Os parâmetros avaliados foram: pressão arterial sistólica (PAS), pressão arterial diastólica (PAD), pressão arterial média (PAM), freqüência cardíaca (FC), ritmo cardíaco e saturação arterial de oxigênio (SaO2). Os três primeiros foram registrados com o auxílio de um aparelho automático de medida da pressão arterial não invasivo marca Dixtal, modelo DX2710 e um eletrocardiógrafo marca FUNBEC, modelo 4F. A SaO2 foi medida com um oxímetro de pulso da marca Ohmeda modelo DIOXI 3700.

Os registros da PAS, PAD, PAM, FC, SaO2 e do eletrocardiograma (ECG) foram feitos em momentos pré-estabelecidos: T1 (paciente na sala de cirurgia, após pré-medicação), T2 (imediatamente após a injeção das drogas de indução), T3 (imediatamente após a intubação orotraqueal), T4 (1 minuto após T3), T5 (1 minuto após T4), T6 (1 minuto após T5).

O estudo estatístico constou de análise do comportamento de cada variável no seu grupo e em cada momento o valor desta variável foi comparado com o do grupo controle. Para tal foram empregados a análise da variância para medidas repetidas e o teste t de Student para comparação de duas médias. A homogeneidade da variância foi analisada pelo teste de Bartlett. O nível de significância foi fixado em 5% (p < 0,05).

 

RESULTADOS

As pressões arteriais médias e a freqüência cardíaca, em cada grupo, variaram significantemente (p < 0,01) nos seis tempos considerados (Tabelas 1 e 2). Quando se compara os valores das pressões e da freqüência, nos dois grupos para um mesmo tempo, não se detecta variações significantes.

Sete (46,6%) dos 15 chagásicos e 9 (34,6%) dos 26 não chagásicos apresentaram níveis de PAD igual ou maior que 90mmHg (Tabela 3). Freqüência cardíaca superior a 80bpm foi detectada em 6 (40%) dos chagásicos e em 13 (50%) dos não chagásicos.

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A SaO2 manteve-se constante tanto nos chagásicos como nos não chagásicos.

Em dois chagásicos foram detectadas, nos momentos T3 e T4, alterações do ritmo cardíaco: um desenvolveu extra-sístoles ventriculares e outro bradicardia importante (< 60bpm), que cederam com tratamento específico (lidocaína e atropina). Dois não chagásicos, no momento T3, apresentaram distúrbio do ritmo cardíaco: um desenvolveu bradicardia e o outro extra-sístole ventricular.

DISCUSSÃO

A análise da Tabela 3 mostra uma única diferença estatisticamente significante, entre chagásicos e não chagásicos: a PAD no momento T3 em relação a T2. Este achado poderia ser atribuído ao estresse da laringoscopia e da intubação orotraqueal, como já demonstrado em não chagásicos6, mas não justifica a razão da resposta ser maior nos chagásicos do que nos não chagásicos em T3.

A predominância de hipertensos no grupo chagásico poderia sugerir que a hipertensão arterial sistêmica tenha contribuído para a resposta diferenciada observada. A favor desta hipótese há o fato dos hipertensos, quando submetidos à anestesia, apresentarem maior labilidade pressória13. Nossos dados não permitem esclarecer a questão e novos estudos deverão ser feitos sobre o assunto. Freqüência cardíaca superior a 80bpm e alterações do ritmo cardíaco foram observados nos dois grupos, não influenciando nos resultados. Associando-se estes dados aos outros achados do presente estudo, somos levados a admitir que também na indução anestésica de cardiopatas chagásicos deve-se optar pelo emprego de etomidato e de vecurônio.

Menção à parte, merece o chagásico classificado na forma indeterminada da doença. Nesta, os pacientes são assintomáticos e têm exames clínico, radiológicos (coração, esôfago e cólons) e eletrocardiográfico convencional, normais11. Ainda que os chagásicos incluídos nesta forma da enfermidade, quando submetidos a exames mais sensíveis possam revelar alterações2, a qualidade e intensidade destas não parecem suficientes para possibilitar uma resposta que contra-indique o emprego do etomidato e vecurônio. Não temos elementos para opinar sobre o emprego das referidas drogas nos chagásicos na fase aguda.

Em conclusão parece-nos recomendável o emprego de etomidato e vecurônio na indução da anestesia geral em chagásicos crônicos.

 

AGRADECIMENTOS

Aos Professores Edison Reis Lopes e Aluízio Prata, pelo incentivo e pelas valiosas sugestões na elaboração do texto.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Disciplina de Anestesiologia da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro. Uberaba, MG.
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Endereço para correspondência: Dr. Nilson de Camargos Roso. Alameda Real 400, 38057-010 Uberaba, MG, Brasil.
Fax: 55 34 318-5269
Recebido para publicação em 5/1/98.